Ederson Pedroso de Marins transformou uma tragédia em recomeço, encontrou na bocha uma forma de superar limites e agora sonha com o lugar mais alto do pódio nos Parajasc
Seis tiros, uma cadeira de rodas e uma certeza: a vida havia mudado para sempre. Mas Ederson Pedroso de Marins decidiu que aquela não seria a história do fim. Seria a história de um recomeço.
Hoje, paratleta de Chapecó e apaixonado pela bocha, Ederson se prepara para disputar a terceira edição dos Jogos Abertos Paradesportivos de Santa Catarina, os Parajasc. Depois de conquistar o bronze em Lages, em 2025, ele quer mais: jogar em casa e buscar a medalha de ouro.
A trajetória até aqui, porém, começou em uma noite que ele jamais esqueceu.
UMA NOITE QUE MUDOU TUDO
Era 23 de agosto de 2017. Naquela noite, a Chapecoense enfrentava o Corinthians na Arena Condá. Ederson havia passado pelo estádio para realizar um serviço. Soldador, ele trabalhava antes da partida e depois voltou para casa, no Rodeio Chato, para acompanhar o jogo pela televisão ao lado da esposa e do filho.
Por volta das 19h05, um assaltante invadiu a residência. Ederson reagiu, foi atingido por seis disparos.
Um tiro atravessou a boca e saiu. Outro atingiu o peito. O terceiro atingiu o ombro. Na tentativa de chegar à cozinha, ele foi atingido novamente, nas costas e na nuca.
Foi então que perdeu a sensibilidade das pernas. Mesmo gravemente ferido, permaneceu consciente. O criminoso fugiu levando o carro. No hospital, veio o diagnóstico que mudaria sua vida: Ederson não voltaria a andar.
“Isso foi mais que um tiro, foi um baque enorme”, lembra.
A RECUPERAÇÃO COMEÇOU ANTES DO PREVISTO
O médico havia explicado que a adaptação poderia levar de dois a três anos. Ederson, porém, não estava disposto a esperar. Aos seis meses, já conseguia levantar, sentar e se transferir para a cadeira de rodas. Em um ano, havia conquistado independência.
A recuperação também contou com uma aliada importante: a experiência esportiva. Antes dos tiros, Ederson praticava Muay Thai e Jiu-Jitsu e já havia participado de competições. O esporte, que durante muito tempo fez parte de sua vida, voltaria a ocupar um papel fundamental. Desta vez, como instrumento de reconstrução.
DA INFÂNCIA PARA A NOVA VIDA
Depois de um período de recuperação, Ederson procurou a Secretaria de Esportes em busca de uma modalidade que pudesse praticar. Primeiro, tentou o atletismo. Não se adaptou. Então veio a bocha. E, de certa forma, foi como voltar no tempo.
Ainda criança, aos oito ou nove anos, Ederson teve os primeiros contatos com a modalidade em uma cancha de areia que o pai mantinha junto a um bar. Décadas depois, a bocha reapareceu justamente quando ele mais precisava de um novo objetivo.
“Voltei depois de tanto tempo e está me ajudando muito, tanto psicologicamente como fisicamente”, conta.
DO BRONZE AO SONHO DO OURO
A primeira grande recompensa veio nos Parajasc de Lages, em 2025. Ederson e sua equipe terminaram entre os três melhores e conquistaram a medalha de bronze. O resultado trouxe uma mistura de orgulho e nostalgia.
Mas também deixou uma sensação de que era possível ir além. Segundo Ederson, um dos obstáculos naquela competição foi a falta de familiaridade com a cancha.
Agora, a realidade é diferente. Jogando em Chapecó, diante de uma cancha que conhece, ele acredita que pode disputar o título.

Fotos: Ascom Parajasc-Pref. Mun. de Chapecó/Divulgação
“Em Lages a gente perdeu por não conhecer a cancha, mas chegamos no top três. Agora, jogando em casa, onde conhecemos a cancha, vamos ver se pegamos o primeiro”, afirma.
UMA FAMÍLIA INTEIRA NA TORCIDA
Se depender da torcida, Ederson não estará sozinho. Ao lado dele estão a esposa, três filhos biológicos, três filhos de coração e dois netos. É dentro de casa que ele encontra parte da força para seguir treinando.
Mas existe também uma rotina que exige disciplina. Levantar cedo, treinar, enfrentar frio, chuva e cansaço.
Para Ederson, não existe espaço para desistência.
“Tem que ter vontade.”
MAIS QUE UMA COMPETIÇÃO
Para ele, os Parajasc vão muito além de uma disputa por medalhas. São uma forma de superação. Uma terapia.
Um compromisso consigo mesmo. E uma demonstração de que uma mudança radical na vida não precisa significar o fim dos sonhos. Ederson acredita que a capacidade de adaptação é uma das maiores forças do ser humano.
“Hoje percebo que o ser humano é o mais adaptável da face da Terra. Independentemente de qual provação você tenha na vida, você consegue se adaptar ao que vier. Basta querer.”
E é com essa determinação que ele chega aos Parajasc. Depois de sobreviver a seis tiros, reaprender a viver, reencontrar o esporte e transformar a bocha em uma nova paixão, Ederson agora quer escrever mais um capítulo dessa história — e, desta vez, com uma medalha de ouro no peito.

