Pequenas propriedades estão descobrindo que aquilo que sempre fez parte da rotina da família pode virar experiência para turistas — e uma nova fonte de renda
Você já imaginou passar um fim de semana em uma propriedade rural, acordar cercado por árvores, caminhar entre flores, conhecer animais, experimentar comida feita no próprio lugar e descobrir como é a vida de quem vive no campo? Para muita gente da cidade, isso já deixou de ser apenas uma ideia.
No Oeste de Santa Catarina, pequenas propriedades estão abrindo as porteiras e transformando rotina, natureza, gastronomia e histórias de família em experiências para visitantes. E o movimento começa a mudar não apenas o turismo, mas também a economia de comunidades rurais.
A lógica é interessante: o agricultor não precisa deixar de produzir para virar empreendedor do turismo. Ele pode continuar plantando, criando animais, produzindo leite, frutas ou outros alimentos e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro recebendo visitantes. É uma espécie de segunda porta de entrada de receita para a propriedade.
DE 15 PARA 35 MUNICÍPIOS
O crescimento já aparece nos números. A Instância de Governança Regional (IGR) Grande Oeste, estimulada pelo Sebrae, reunia 15 municípios há quatro anos. Hoje, são 35 cidades envolvidas na articulação regional do turismo.
Para o presidente da IGR, Bruno Antonio Vivian, a expansão mostra que os municípios estão percebendo que o turismo não precisa ficar restrito aos destinos tradicionalmente conhecidos.
E existe uma vantagem importante: uma pequena cidade não precisa oferecer tudo sozinha. O turista pode dormir em um município, tomar café em outro, conhecer uma propriedade rural em um terceiro e terminar o dia em um restaurante de uma quarta cidade. A viagem deixa de ser municipal e passa a ser regional.
DESAFIE-SE: DESBRAVE CHAPECÓ E DESCUBRA ESSES BELOS LUGARES PARA PASSEAR
E aqui entra uma pergunta para quem mora em Chapecó e região: quantos lugares bonitos você conhece a poucos quilômetros de casa? Talvez a resposta seja menor do que você imagina.
Entre propriedades rurais, áreas de natureza, jardins, espaços de hospedagem, gastronomia e experiências ligadas à vida no campo, existe um potencial turístico que muitas vezes passa despercebido justamente por estar tão perto. Para o visitante, aquilo pode ser uma descoberta. Para quem vive na propriedade, pode ser a própria rotina. E, para a economia local, pode representar uma nova oportunidade de renda.
O desafio agora é fazer essa conexão acontecer. Ter uma propriedade bonita, uma boa experiência ou uma atividade diferente é uma coisa. Fazer com que o turista descubra que aquele lugar existe é outra.
Foi para enfrentar justamente esse desafio que surgiu o VOMO, aplicativo criado por empreendedores da região e apresentado no Startup Summit 2026, em Florianópolis. A plataforma reúne experiências e atrativos turísticos e funciona como uma ponte entre o visitante e os empreendimentos.
Em vez de o turista precisar procurar individualmente por cada lugar, a proposta é encontrar opções de acordo com aquilo que deseja fazer. Quer natureza? Há opções. Quer gastronomia? Também. Quer hospedagem no campo? É possível encontrar.
Quer uma experiência diferente com a família? A proposta é ajudar a colocar esses lugares no caminho do viajante. E existe uma vantagem especialmente importante para os pequenos empreendedores: a propriedade passa a ter uma vitrine digital sem precisar construir sozinha uma estrutura de divulgação.
O CAMPO QUE OS FILHOS ESTAVAM DEIXANDO AGORA PODE TRAZÊ-LOS DE VOLTA
Talvez esse seja um dos efeitos mais interessantes desse movimento. Durante décadas, a história foi praticamente a mesma em muitas famílias rurais: os filhos saíam para estudar ou trabalhar nas cidades e dificilmente retornavam. Agora, alguns estão fazendo o caminho contrário.
A IGR já identifica casos em municípios como Lajeado Grande e Coronel Freitas em que jovens que haviam deixado suas cidades voltaram para ajudar as famílias em empreendimentos ligados ao turismo rural. Não é apenas uma questão de dinheiro. É uma nova possibilidade de enxergar a própria propriedade.
UMA FAMÍLIA DE CORONEL FREITAS VIVE ESSA MUDANÇA
Em Coronel Freitas, o próprio Bruno Vivian experimenta essa transformação dentro de casa. Com a família, ele mantém o Floral do Monte, uma propriedade que reúne jardim contemplativo, flores, árvores frutíferas e hospedagem. Agora, o espaço também se prepara para incorporar a gastronomia à experiência.
E existe um detalhe que resume bem essa mudança: a filha de Bruno morava em Chapecó e retornou ao município para participar do empreendimento. Ou seja, aquilo que poderia ser apenas uma propriedade familiar tornou-se também uma oportunidade para a próxima geração.
NÃO É SOBRE ABANDONAR A AGRICULTURA
E aqui está um ponto fundamental. Turismo rural não significa transformar agricultor em hoteleiro. A proposta é diversificar. A produção continua. O turismo entra como complemento.
Uma família pode continuar produzindo leite, cultivando frutas ou mantendo sua criação de animais e, em determinados dias, receber visitantes interessados justamente em conhecer essa realidade. O produto turístico, nesse caso, não precisa ser inventado. Ele já existe. É a própria vida no campo.
DEPOIS DA PANDEMIA, O TURISTA MUDOU
A procura por esse tipo de experiência também acompanha uma mudança no comportamento de quem viaja. Segundo Bruno, cresceu o interesse por viagens curtas, de dois ou três dias, especialmente entre famílias que querem contato com a natureza e experiências diferentes da rotina urbana.
Não necessariamente é preciso viajar centenas de quilômetros. Às vezes, basta sair da cidade. E o Oeste tem um ingrediente que muitas regiões turísticas precisam construir artificialmente: uma identidade rural de verdade.
Aqui, ela está nas propriedades, na comida, nas famílias, nas tradições, nos animais, nas plantações e na história de quem ajudou a construir a região.
O QUE ERA ROTINA PODE VIRAR EXPERIÊNCIA
O desafio agora é organizar tudo isso. Fortalecer os conselhos municipais de turismo, capacitar empreendedores, identificar propriedades com potencial, melhorar a divulgação e conectar os atrativos são alguns dos caminhos defendidos pela governança regional.
Porque um turista que passa apenas algumas horas em uma cidade deixa pouco. Mas um visitante que encontra uma propriedade rural, almoça em um restaurante, compra produtos locais, dorme em uma pousada e conhece outro município no dia seguinte movimenta uma cadeia muito maior.
É dinheiro novo entrando na região. E talvez esteja aí a grande oportunidade do turismo rural no Oeste: não transformar o campo em outra coisa, mas mostrar que aquilo que já existe — a paisagem, a produção, a comida e as histórias — também pode ter valor turístico.
No fim das contas, para quem sempre viveu no campo, pode parecer apenas mais um dia de trabalho. Para quem vem da cidade, pode ser exatamente a experiência que estava procurando. E o próximo destino pode estar muito mais perto do que você imagina.
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Foto: Redação Rádio Chapecó / Gemini-IA

