O FATO QUE DEFLAGRA A CRISE
Relatório da Polícia Federal reúne comunicações atribuídas ao ex-controlador do Banco Master com Alexandre de Moraes; André Mendonça aciona PGR e quer levar novos elementos ao plenário do Supremo
BRASÍLIA — A divulgação de um relatório da Polícia Federal com mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, elevou nesta terça-feira (1º) a tensão dentro do Supremo Tribunal Federal e colocou os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no centro de uma disputa sobre como devem ser tratados os novos elementos da investigação.
Mendonça, relator do caso Master no STF, retirou o sigilo do procedimento e pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República. O ministro também defende que o plenário do Supremo examine os novos elementos, independentemente da resposta da PGR.
O caso ganha dimensão institucional porque parte das comunicações recuperadas pela PF é atribuída a conversas de Vorcaro com Moraes e contém referências a autoridades responsáveis por órgãos diretamente relacionados às investigações.
PF IDENTIFICOU CONTATO ATRIBUÍDO A MORAES
No relatório de 218 páginas, a Polícia Federal informa ter identificado no aparelho de Vorcaro um número associado ao contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
A reconstrução das comunicações foi possível apesar do uso de mensagens com visualização única. Segundo a investigação, Vorcaro produzia textos no bloco de notas do celular, fazia capturas de tela e as encaminhava pelo WhatsApp, deixando vestígios digitais que posteriormente puderam ser analisados.
Entre os registros divulgados nesta terça-feira há mensagens enviadas nos dias anteriores à prisão de Vorcaro, em novembro de 2025.
Em uma delas, o empresário pergunta ao interlocutor se deveria estar “fora” do país na segunda-feira seguinte. As comunicações ocorreram pouco antes da prisão realizada pela Polícia Federal.
A existência da mensagem, entretanto, não permite concluir isoladamente que Moraes tenha aconselhado Vorcaro a deixar o Brasil ou fornecido informação sigilosa. Para isso, seria necessário conhecer o conteúdo completo da comunicação e comprovar eventual resposta ou atuação do ministro.
VORCARO MENCIONA GONET E DIRETOR DA PF
Outro trecho considerado relevante por Mendonça envolve referência a “Andrei” e “Paulo”.
A Polícia Federal relaciona os nomes a Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República. Diante do conteúdo, Mendonça pediu explicações à PGR e concedeu prazo para manifestação.
O material indica que Vorcaro buscava auxílio diante das medidas investigativas que atingiam o Banco Master.
Mas existe uma distinção fundamental: uma tentativa de obter influência não comprova que a influência tenha efetivamente ocorrido.
Até o momento, não há decisão judicial que estabeleça que Moraes, Gonet ou Andrei Rodrigues tenham interferido ilegalmente na Operação Compliance Zero.
MENDONÇA QUER O PLENÁRIO
Ao retirar o sigilo e defender a apreciação do material pelo plenário, Mendonça transformou uma discussão até então restrita aos autos em um problema institucional para todo o Supremo.
Segundo a CNN, Mendonça avisou previamente Moraes e o presidente da Corte, Edson Fachin, que avançaria na análise das informações e pediria posicionamento da PGR.
A questão que poderá chegar aos onze ministros é sensível: como o Supremo deve proceder quando uma investigação regularmente instaurada encontra elementos relacionados a um integrante da própria Corte?
RELAÇÃO ENTRE MENDONÇA E MORAES SE DETERIORA
O episódio também provocou desgaste entre os dois ministros.
Fontes ouvidas pela CNN classificaram como “dura e ríspida” uma conversa entre Moraes e Mendonça após a decisão de submeter as mensagens à PGR.
Outros relatos chegaram a mencionar intervenção de seguranças em uma discussão entre integrantes da Corte. Essa informação, porém, deve ser tratada com cautela enquanto não houver confirmação institucional ou documentação pública suficiente.
O fato verificável é que existe uma divergência importante sobre o procedimento adotado.
CRISE CHEGA À POLÍCIA FEDERAL
As tensões também alcançaram a cúpula da PF.
Segundo reportagem da CNN, o diretor-geral Andrei Rodrigues manifestou insatisfação com a condução de Mendonça. Paralelamente, o ministro restringiu o acesso a parte do material e exigiu a íntegra das comunicações relacionadas à chamada “suposta rede de influência” de Vorcaro.
O conflito procedimental é especialmente delicado porque envolve instituições que normalmente atuam de forma complementar: STF, Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República.
SUPREMO DIANTE DE UMA DECISÃO INCÔMODA
A crise não está limitada às mensagens.
Ela coloca o STF diante da necessidade de decidir se existem elementos jurídicos suficientes para aprofundar uma investigação que alcança um de seus integrantes — e qual procedimento constitucional deve ser adotado para isso.
Mendonça sustenta que o plenário precisa tomar conhecimento do material. Integrantes da Corte, por outro lado, criticam o método empregado pelo ministro e questionam o rito utilizado para requisitar e divulgar informações envolvendo autoridades com foro.
A discussão, portanto, ainda está aberta.
Não existe condenação, denúncia recebida ou conclusão judicial contra Alexandre de Moraes decorrente desse material.
Existem, porém, elementos policiais oficialmente submetidos ao Supremo e questionamentos que agora exigem resposta institucional da própria Corte.
===
SÉRIE ESPECIAL | CRISE NO STF — Esta reportagem integra a cobertura especial do Portal Rádio Chapecó sobre os desdobramentos do caso Banco Master, as investigações em curso e seus efeitos institucionais. As informações são atualizadas conforme decisões oficiais, documentos públicos e manifestações das partes envolvidas.

