Agricultores franceses protestam nas ruas enquanto Macron anuncia voto contra o tratado, ameaçando assinatura histórica
A ofensiva final em torno do aguardado acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul viu uma escalada de episódios políticos e protestos de um lado e de outro do Atlântico nas últimas semanas, marcando uma das fases mais tensas das negociações de quase três décadas.
Adiamento e promessa de assinatura
No dia 20 de dezembro de 2025, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que a tão esperada assinatura do tratado entre a UE e o Mercosul — que inclui Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai — não ocorreria na data prevista naquela data, em Foz do Iguaçu. O chefe do Executivo lamentou o adiamento e afirmou que líderes europeus pediram mais tempo para discutir “medidas adicionais de proteção agrícola”, em especial diante da firme oposição da França ao acordo. Lula expressou otimismo de que o acordo poderia ser finalmente assinado em janeiro de 2026 e destacou que, caso a Itália estivesse pronta para aderir, a França sozinha não poderia impedir a conclusão do tratado.
O acordo, negociado desde 1999 e já aprovado em seus termos gerais há vários anos, tem potencial de integrar um mercado com mais de 700 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto combinado de cerca de US$ 22 trilhões, o que o tornaria um dos maiores tratados comerciais do mundo.
Protestos de agricultores em Paris
No início de janeiro de 2026, a controvérsia alcançou as ruas de Paris, quando agricultores franceses bloquearam estradas que dão acesso à capital e pontos turísticos em protesto contra o acordo, um dia antes da votação prevista pelos Estados‑membros da UE. Os manifestantes, que mobilizaram tratores e romperam barreiras policiais para ocupar vias como a Champs‑Élysées e o entorno do Arco do Triunfo, argumentaram que o tratado poderia inundar o mercado europeu com importações mais baratas, ameaçando a competitividade dos produtores locais. Além disso, houve críticas à forma como o governo vinha lidando com questões internas, como a política de abate de gado diante de uma doença que afeta a pecuária francesa.
O protesto intensificou a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron, especialmente em um momento em que a votação no Conselho da UE estava prestes a ocorrer e sua base parlamentar era frágil.
Macron anuncia voto contra o acordo
Na tarde de 8 de janeiro de 2026, Emmanuel Macron declarou oficialmente que a França votaria contra a assinatura do acordo entre a União Europeia e o Mercosul, reforçando sua posição crítica diante do texto negociado. O presidente francês afirmou que, embora apoie o comércio internacional, considerava o pacto “desatualizado” e com benefícios econômicos limitados para França e Europa, além de sublinhar a pressão intensa que recebia dos agricultores contrários ao tratado.
Macron também destacou que outros países, como Irlanda, Polônia e Hungria, eram contrários ao acordo, enquanto Alemanha e Espanha se posicionavam favoráveis à assinatura. A Itália ainda não havia se definido claramente até aquele momento, mas indicava possível apoio.
Contexto e próximos passos
Os episódios refletem as complexas forças políticas e econômicas em jogo: de um lado, o desejo de integrar mercados e expandir relações comerciais intercontinentais; do outro, receios de setores produtivos domésticos sobre efeitos da liberalização comercial. A disputa no interior da União Europeia e a reação de produtores agrícolas franceses têm se convertido em fatores determinantes para o desfecho do tratado. A votação decisiva no Conselho da UE, que poderia ocorrer já em janeiro de 2026, aproxima‑se em meio a intensos debates sobre proteções setoriais, preocupações ambientais e estratégias geoeconômicas em um mundo cada vez mais competitivo.
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Foto: Ricardo Stuckert-PR
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